Orar por alguém que feriu você e abençoá-lo
Há feridas que se guardam por muito tempo: uma palavra humilhante, uma traição, uma injustiça. Gostaríamos que a pessoa enfim entendesse o que fez. E eis que Jesus nos pede que oremos por ela e a abençoemos. Esta missão é uma das mais exigentes do seu percurso, e convém abordá-la com suavidade consigo mesmo.
Como isso aparece no seu dia
Não se trata de fingir que nada aconteceu, nem de correr para uma reconciliação. A oração pode vir muito antes do perdão completo. Veja uma maneira de proceder:
- Diga a ferida a Deus. Você tem o direito de ser preciso, direto, até de estar com raiva: “Senhor, ele me humilhou diante de todo mundo. Sinto vergonha e tenho vontade de que ele pague.”
- Reconheça o seu estado. “Não consigo perdoar por mim mesmo.”
- Peça para abençoar. “Senhor, escolho pedir a ti o bem dele: saúde, paz, sabedoria, encontro contigo.”
- Entregue a ele a justiça. “Tu és quem julga. Não quero mais carregar isso sozinho.”
Muitas vezes será preciso recomeçar vários dias seguidos, às vezes várias semanas. É normal. Uma ferida profunda não se fecha com um único gesto. A missão pede de você um passo, não um resultado.
Se você está com pressa, uma frase basta: “Senhor, abençoa-o, porque não consigo sozinho.” Se é tímido na oração, escreva-a num caderno. Se a ferida é muito recente, não se force a ir mais rápido que o seu coração: diga a Deus o que puder e deixe o resto.
O que a Bíblia diz
Jesus não diz para agir como se você não tivesse sentido nada. Ele diz:
Lucas 6:28
E Paulo retoma:
Romanos 12:14
A bênção, aqui, não é um sentimento, é um ato: desejar o bem, pedir a Deus o bem para a pessoa. Na cruz, Jesus orou por aqueles que o levavam à morte, pedindo ao Pai que os perdoasse, porque não sabiam o que faziam (Lucas 23:34). Ele deu o modelo do que somos chamados a imitar.
José, vendido pelos irmãos, acaba dizendo a eles:
Gênesis 50:20
Ele não minimiza a falta deles, pois reconhece que haviam planejado fazer-lhe mal, mas vê a mão de Deus por trás. Esse olhar levou anos para amadurecer, e não apaga a dor: dá a ela um sentido.
Armadilhas a evitar
Forçar o perdão. Dizer “eu perdoo você” cedo demais, antes de olhar a ferida, pode ser uma fuga. A oração pode ser um primeiro passo rumo ao perdão, não um atalho para evitar sofrer.
Confundir abençoar com se pôr de novo em perigo. Orar por alguém não significa devolver a essa pessoa acesso à sua vida se ela continuar a fazer mal a você. Você pode abençoar de longe e proteger o seu espaço.
Minimizar a sua ferida. “Não foi tão grave” costuma ser um jeito de se calar. Se foi grave, diga isso a Deus. Ele não se ofende.
Julgar-se se o ressentimento voltar. Ele talvez volte. Isso não quer dizer que a sua oração era falsa. Simplesmente recomece.
Esperar um pedido de desculpas. Pode ser que a pessoa nunca reconheça o erro. A sua paz não deve depender disso.
Hoje, diga o nome da pessoa diante de Deus. Diga o que dói. Depois diga a ele, mesmo a contragosto: “Abençoa-a.”