Reler um versículo três vezes, devagar: a lectio divina para todos
Na nossa época de velocidade, lê-se depressa, passa-se os olhos, vai-se ao seguinte. A Bíblia nem sempre se deixa ler assim. Existe uma prática muito antiga, a lectio divina (leitura divina, em latim), que consiste em ler um texto devagar, várias vezes, tomando tempo para escutá-lo. Esta missão propõe uma versão simples dela: reler um único versículo três vezes, devagar.
Como isso aparece no seu dia
Escolha um versículo curto. Um só. Por exemplo, a primeira frase do Salmo 23, em que o Senhor é apresentado como pastor. Depois faça três leituras, cada uma com uma intenção diferente:
- Primeira leitura: escutar. Leia o versículo em voz baixa, devagar. Pergunte-se: o que ele diz, simplesmente? Que palavras se repetem? Nada mais.
- Segunda leitura: parar numa palavra. Releia e deixe uma palavra ou expressão prender a sua atenção. Fique nela: por exemplo, pastor, faltar. O que ela evoca para você hoje?
- Terceira leitura: responder. Releia uma última vez e responda a Deus com as suas palavras: um obrigado, uma pergunta, um pedido, uma confissão. “Senhor, tenho a impressão de que me falta tudo neste momento. Ajuda-me a confiar em ti.”
Depois você pode ficar um minuto em silêncio, sem dizer nada. A tradição da lectio divina conhece quatro movimentos: ler, meditar, orar, contemplar. As três leituras acima são uma adaptação leve deles.
Se você está com pressa, três minutos bastam. Se é iniciante, não procure o sentido teológico: procure simplesmente o que fala a você. Se é tímido, pode murmurar o versículo sem dizer mais nada.
O que a Bíblia diz
A Bíblia descreve essa leitura lenta como fonte de felicidade:
Salmos 119:97
O salmista não se contenta em ler: rumina com alegria, o dia inteiro. O profeta Jeremias usa uma imagem ainda mais forte:
Jeremias 15:16
Ele diz que devorou as palavras de Deus: a palavra é um alimento. E no Evangelho de Lucas, Maria nos oferece um exemplo discreto, mas eloquente, do que significa meditar:
Lucas 2:19
Maria guardava essas coisas e as ponderava no coração: um movimento de vaivém, sem pressa. A lectio divina não faz outra coisa: repassar no coração o que Deus diz.
O primeiro salmo, aliás, fala da pessoa que medita na lei do Senhor dia e noite (Salmos 1:2). A meditação bíblica não é um exercício inventado: atravessa toda a Escritura.
Armadilhas a evitar
Buscar uma experiência mística. A lectio divina não existe para produzir sensações extraordinárias. Se você não sente nada, não perdeu nada: leu devagar, e isso já é muito.
Fazer o versículo dizer qualquer coisa. Deixar o texto falar não quer dizer projetar as suas ideias. Fique de olho no sentido da passagem: releia o contexto, se preciso com uma nota ou uma tradução diferente.
Correr para a “lição”. Tende-se a querer tirar uma moral em trinta segundos. A primeira leitura deve continuar sendo uma escuta. Deixe o texto existir antes de pedir algo a ele.
Pegar um versículo longo demais. Para começar, uma frase basta. Uma passagem longa demais dispersa a atenção.
A culpa do silêncio. Se os seus pensamentos derivam, traga-os suavemente de volta ao versículo. Não é fracasso: é próprio do exercício.
Pegue um versículo hoje, só um. Leia-o três vezes, devagar, com três intenções diferentes. Depois deixe um silêncio.